A Evolução da Gestão da Remuneração: de Adam Smith aos Modelos Contemporâneos de Incentivos e Competências

A forma como as organizações estruturam e gerenciam a remuneração reflete, historicamente, o próprio modelo de organização do trabalho e o estágio de desenvolvimento econômico e social de cada época. Desde os fundamentos clássicos da economia política, com Adam Smith em A Riqueza das Nações (1776), até os atuais modelos baseados em competências/habilidades, desempenho coletivo e incentivos de curto e longo prazo, a remuneração evoluiu de um instrumento meramente transacional para um importante vetor estratégico de gestão de pessoas e competitividade organizacional.

Minha ideia com este artigo é percorre essa trajetória, conectando os principais modelos de remuneração à evolução das empresas, das relações de trabalho e do cenário contemporâneo de negócios.

As Bases Clássicas: Adam Smith e a Remuneração como Custo de Produção (Século XVIII)

Em A Riqueza das Nações, Adam Smith analisou o trabalho como um dos principais fatores de produção e abordou os salários sob a ótica do equilíbrio entre oferta e demanda de mão de obra. Nesse contexto a remuneração era vista essencialmente como preço do trabalho; o foco estava na subsistência do trabalhador e na eficiência produtiva e predominava uma lógica econômica e operacional, com baixa preocupação com desenvolvimento humano ou engajamento.

Modelo predominante:
Remuneração fixa por tempo de trabalho ou produção básica, com pouca diferenciação por competências ou desempenho.

Era Industrial e Taylorismo: Pagamento por Produção e Eficiência (Final do Século XIX e Início do Século XX)

Com a Revolução Industrial e o advento da Administração Científica de Frederick Taylor, a remuneração passou a ser fortemente associada à produtividade individual com ênfase em tarefas padronizadas e repetitivas, introdução de pagamento por peça, produção ou metas físicas, bem como separação clara entre quem planeja e quem executa.

Modelos de remuneração:

  • Salário fixo por função;
  • Incentivos de curto prazo atrelados à produtividade;
  • Prêmios por eficiência.

Esse modelo foi adequado ao contexto fabril, mas trouxe efeitos colaterais: visão mecanicista do trabalhador, pouco estímulo à criatividade e aumento de conflitos trabalhistas.

Consolidação das Estruturas de Cargos e Salários: Estabilidade e Hierarquia (Décadas de 1940 a 1980)

Com o crescimento das grandes corporações e a institucionalização da área de Recursos Humanos, surge a necessidade de sistemas mais estruturados e equitativos:

  • Criação de Planos de Cargos e Salários (PCS);
  • Avaliação e descrição de cargos;
  • Estruturas salariais hierarquizadas por níveis;
  • Forte ênfase em equidade interna e conformidade legal.

Modelos predominantes:

  • Remuneração funcional;
  • Tabelas salariais e faixas por nível;
  • Benefícios padronizados.

Nesse período, a remuneração cumpre papel de estabilidade organizacional, reforçando carreiras lineares e previsíveis, alinhadas a um mercado de trabalho mais estável e a relações de longo prazo entre empregado e empregador.

Globalização, Competitividade e Remuneração Variável: Performance no Centro (Décadas de 1990 e 2000)

A intensificação da competição global, a abertura de mercados e a pressão por eficiência financeira mudaram a lógica da remuneração:

  • Crescimento da remuneração variável;
  • Introdução de bônus, PLR e incentivos por metas;
  • Alinhamento entre objetivos individuais, de equipe e organizacionais;
  • Consolidação de práticas de benchmarking salarial.

Modelos em destaque:

  • Remuneração fixa + variável;
  • Programas de participação nos resultados (PLR);
  • Incentivos de curto prazo (STI) e longo prazo (LTI) para lideranças.

A remuneração passa a ser vista como instrumento de direcionamento de comportamento, conectando pessoas à estratégia e aos resultados do negócio.

A Economia do Conhecimento: Competências, Habilidades e Valor Humano (Anos 2010 em diante)

Com a transformação digital, a valorização do capital intelectual e o crescimento de modelos organizacionais mais ágeis, a lógica de remuneração migra do “cargo” para a “capacidade de gerar valor”:

  • Organizações passam a remunerar competências, habilidades e certificações;
  • Estruturas mais flexíveis, com carreiras em Y, W ou modelos em rede;
  • Reconhecimento do papel da aprendizagem contínua;
  • Integração entre remuneração, desenvolvimento e estratégia de talentos.

Modelos contemporâneos:

  • Remuneração por competências/habilidades;
  • Incentivos por projetos e entregas;
  • Modelos híbridos (fixo + variável + reconhecimento não financeiro);
  • Programas de equity e incentivos de longo prazo em empresas de tecnologia e startups.

Nesse cenário, a remuneração deixa de ser apenas um custo e passa a ser tratada como investimento estratégico em talentos críticos.

O Cenário Atual: Remuneração Total, ESG, Flexibilidade e Experiência do Colaborador

Hoje, a gestão da remuneração está inserida em um contexto mais amplo de proposta de valor ao empregado (EVP) e estratégia de pessoas:

  • Integração entre remuneração financeira e não financeira;
  • Benefícios flexíveis e personalizáveis;
  • Atenção à equidade, diversidade e inclusão;
  • Uso de dados, analytics e IA para simulações de impacto e decisões mais informadas;
  • Alinhamento com agendas de ESG e bem-estar.

Abordagem moderna:

  • Remuneração Total (Total Rewards);
  • Incentivos alinhados a resultados sustentáveis e coletivos;
  • Modelos de remuneração que equilibram performance, cultura e propósito.

Da Transação ao Valor Estratégico

A trajetória da gestão da remuneração revela uma mudança profunda de um modelo transacional e operacional, focado no “preço do trabalho”, para uma abordagem estratégica, integrada à cultura, à estratégia e à sustentabilidade das organizações.

No cenário atual, empresas que tratam a remuneração apenas como folha de pagamento tendem a perder competitividade, já aquelas que a utilizam como ferramenta de atração, engajamento, desenvolvimento e retenção de talentos constroem vantagens difíceis de replicar.

A evolução iniciada com Adam Smith continua agora impulsionada por tecnologia, novos modelos de trabalho e uma visão mais humana e estratégica da relação entre pessoas e valor gerado para os negócios.